terça-feira, outubro 17, 2006

O Último Esteta





















Homenagem a

Luchino Visconti


O Último Esteta



No ano do 1.º centenário de Luchino Visconti, o ABC Cine-Clube de Lisboa promove, em parceria com A Voz do Operário, e o apoio técnico do Museu do Neo-Realismo, um ciclo de homenagem ao grande mestre, precursor e figura primordial do movimento neo-realista italiano, e principal protagonista na superação estética dos paradigmas mais emblemáticos da corrente cinematográfica nascida em Itália no imediato pós-guerra.

Dividido entre as artes cénicas (teatro, ópera e ballet) e o cinema, a filmografia de Visconti compreende 14 longas-metragens, 1 filme colectivo e 3 participações em filmes de sketches.

Nascido a 2 de Novembro de 1906, Visconti viveu os seus últimos dias, totalmente hemiplégico, filmando em cadeira de rodas os dois filmes derradeiros, “Violência e Paixão” e “O Inocente”. Morreu a 17 de Março de 1976, isto é, há 30 anos.
O ciclo inclui dez dos seus filmes de fundo e inicia-se precisamente no dia do seu nascimento.


CALENDÁRIO DAS SESSÕES


Novembro 2006

Quinta-feira, 2/11, 18h30
MORTE EM VENEZA
(Morte a Venezia), 1970
argumento, adaptação e diálogos: L. Visconti e Nicola Badalucco, segundo a novela homónima de Thomas Mann.
fotografia: Pasqualino De Santis.
música: excertos das 3.ª e 5.ª Sinfonias de Gustav Mahler.
intérpretes: Dirk Bogard, Björn Andresen, Silvana Mangano, Mark Burns, Nora Ricci, Marisa Berenson, etc.
130 minutos. Cor. Panavision.

Versão original - legendas em português

Sábado, 4/11, 17h00
VIOLÊNCIA E PAIXÃO
(Gruppo di famiglia in un interno / Conversation Peace), 1974
argumento e diálogos: L. Visconti, Suso Cecchi D’Amico e Enrico Medioli.
fotografia: Pasqualino De Santis.
música: Sinfonia Concertante em mi, K. 364, e Ária “Vorrei Spiegarvi”, K. 418, de Wolfgang Amadeus Mozart.
intérpretes: Burt Lancaster, Silvana Mangano, Claudia Marsani, Helmut Berger, Elvira Cortese, Stefano Patrizi, Romolo Valli, Claudia Cardinale, Enzo Fiermonte, Dominique Sanda, etc.
121 minutos. Cor. Todd AO.

Versão original - legendas em português

Quinta-feira, 9/11, 18h30
SENTIMENTO

(Senso), 1953-54
argumento: L. Visconti e Suso Cecchi D’Amico, baseado no romance do mesmo título de Camillo Boito.
adaptação e diálogos: L. Visconti, S. C. D’Amico. Giorgio Prosperi, Carlo Alianello e Georgio Bassani.
colaboração nos diálogos: Tennessee Williams e Paul Bowles.
fotografia: G. R. Aldo e Robert Krasker.
música: Excertos da 7.ª Sinfonia de Anton Bruckner e de “O Trovador” de Giuseppe Verdi.
intérpretes: Alida Valli, Farley Granger, Massimo Girotti, Heinz Moog, Rina Morelli, Marcella Mariani, Christian Marquand, etc.
115 minutos. Cor.

Versão original - legendas em português

Sábado, 11/11, 17h00
A TERRA TREME
(La Terra trema), 1947-48
argumento e adaptação: L. Visconti, baseado no romance “I Malavoglia” de Giovanni Verga.
fotografia: G. R. Aldo e Gianni di Venanzo.
música: arranjos musicais de L. Visconti e Willy Ferrero.
intérpretes: pescadores de Aci Trezza (Sicília)
160 minutos. Preto e branco.

Versão original - legendas em português

Quinta-feira, 16/11, 18h30
BELÍSSIMA
(Bellissima), 1951
argumento: Cesare Zavattini.
adaptação e diálogos: L. Visconti. Suso Cecchi D’Amico e Francesco Rosi.
fotografia: Piero Portalupi e Paul Ronald.
música: Franco Mannino (sobre temas de “O Elixir de Amor” de Donizetti).
intérpretes: Anna Magnani, Tina Apicella, Walter Chiari, Alessandro Blasetti, Gastone Renzelli, etc.
114 minutos. Preto e branco.

Versão original - legendas em português

Sábado, 18/11, 15h00 (sessão dupla)
OBSESSÃO
(Ossessione), 1942-43
argumento: L. Visconti, Mario Alicata, Giuseppe De Santis e Giannii Puccini, baseado no romance “The Postman always rings twice” (O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes) de James Cain.
fotografia: Aldo Tonti e Domenico Scala.
música: Giuseppe Rosati.
intérpretes: Massimo Girotti, Clara Calamai, Juan De Landa, Elio Marcuzzo, Dhia Cristiani, etc.
143 minutos. Preto e branco.

Versão original - legendas em português

filme a confirmar:
O LEOPARDO
(Il Gattopardo), 1962
argumento: L. Visconti, segundo o romance homónimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.
adaptação e diálogos: L. Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa e Enrico Medioli.
fotografia: Giuseppe Rotunno.
música: Nino Rota (com uma valsa inédita de Verdi).
intérpretes: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Rina Morelli, Paolo Stoppa, Serge Reggiani, Lucilla Morlacchi, Romolo Valli, Pierre Clementi, Giuliano Gemma, etc.
201 minutos. Cor. Cinemascope.

Versão original - legendas em espanhol

Quinta-feira, 23/11, 18h30
OS MALDITOS

(La Caduta degli Dei / The Damned), 1968
argumento e diálogos: L. Visconti, Nicola Badalucco e Enrico Medioli.
fotografia: Armando Nannuzzi e Pasqualino De Santis.
música: Maurice Jarre.
intérpretes: Ingrid Thulin, Dirk Bogard, Helmut Berger, Helmut Griem, Umberto Orsini, Charlotte Rampling, René Koldehoff, Florinda Balkan, etc.
154 minutos. Cor.

Versão origina - legendas em português

Sábado, 25/11, 17h00
ROCCO E OS SEUS IRMÃOS

(Rocco e i suoi fratelli), 1960
argumento: L. Visconti, Vasco Pratolini e Suso Cecchi D’Amico, inspirados no romance “Il Ponte della Ghisolfa” de Geovanni Testori.
adaptação e diálogos: L. Visconti, S. C. D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa e Enrico Medioli.
fotografia: Giuseppe Rotunno.
música: Nino Rota.
intérpretes: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Roger Hanin, Paolo Stoppa, Claudia Cardinale, Suzy Delair, Spiros Focas, Max Cartier, Corrado Pani, Rocco Vidolazzi, etc.
180 minutos. Preto e branco.

Versão original - legendas em português

Quinta-feira, 30/11, 18h30
O INTRUSO

(L’Innocente), 1975-76
argumento: L. Visconti, segundo o romance homónimo de Gabriele D’Annunzio.
adaptação e diálogos: L. Visconti, Suso Cecchi D’Amico e Enrico Medioli.
fotografia: Pasqualino De Santis.
música: Franco Mannino.
intérpretes: Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Jeniffer O’Neill, Marc Porel, Rina Morelli, Massimo Girotti, etc.
125 minutos. Cor. Cosmovision.

Versão original - legendas em português


Sessões no Auditório João Hogan
Voz do Operário

Rua da Voz do Operário,13
Tel. 218 862 155



Acesso às sessões: entrada livre
Classificação etária geral: maiores de 16 anos. O programa pode ser alterado por motivos imprevistos.


Organização

ABC CINE-CLUBE DE LISBOA
Rua do Conde Redondo, 20, 3.º Dt.
1150-106 Lisboa
Tel. 213 142 790
E-mail: abccineclube@hotmail.com
http://abc-cineclube.blogspot.com

Parceria
A VOZ DO OPERÁRIO
www.vozoperario.pt

Apoio
MUSEU DO NEO-REALISMO

Patrocínio
ICAM – MC
Rede Alternativa de Exibição Cinematográfica


segunda-feira, junho 12, 2006

BERLIN ALEXANDERPLATZ

Um filme em treze partes e um epílogo

Rainer Werner Fassbinder fala da novela “Berlin Alexanderplatz”:

“... Um antigo trabalhador dos transportes, Franz Biberkopf, é libertado da prisão, onde passou quatro anos pelo assassínio da sua antiga namorada, Ida. Durante a terrível situação económica de Berlim nos anos vinte, Ida havia-se prostituído por ele. Como um ex-condenado, ele começa por indiciar os perigos potenciais do costume, dos quais finalmente se liberta quando tente violar a irmã da sua vítima. Na sequência, revela-se capaz de encetar uma relação com Lina, rapariga polaca, e fá-lo de tal forma que ela acredita tratar-se de amor, levando Franz a jurar manter-se decente a partir daí. A sua situação financeira é terrível e todas as tentativas de obter uma situação estável falham, seja vender gravatas, literatura erótica, o jornal Völkischer Bebachter - o que leva a ter problemas com os ex-amigos, comunistas, com quem havia anteriormente partilhado uma causa comum, em que acreditava. Resta-lhe a venda de atacadores - as pessoas sempre precisam deles - conjuntamente com um tio de Lina, até este abusar da confiança que nele depositava, chantageando e ameaçando uma viúva, que Franz havia feito feliz a troco de algum dinheiro. Franz, que tem uma fé inabalável no lado bom das pessoas, não faz mais que beber desabridamente durante semanas antes de conseguir regressar novamente à sua vida e reatar o seu relacionamento com as pessoas.

Conhece então um homem, de nome Reinhold, um pequeno gangster que exerce sobre ele um estranho fascínio, um fascínio tal que leva Franz a fazer um insólito acordo com ele. Fica com as mulheres que este já não deseja, pois Reinhold cansa-se depressa das suas mulheres. É quase patológico. Primeiro, tem de fazer a conquista, custe o que custar, e depois abandona-a súbita e brutalmente. Sente-sedesconfortável com isso e tem dificuldades em fazê-lo. Mas Franz - que Reinhold repara estar de algum modo fascinado por ele, e o julga consideravelmente estúpido - livra-o das suas mulheres: primeiro uma, depois outra, mas quando chega uma terceira, Franz recusa. Chegou a hora de Reinhold aprender a manter uma relação estável. Franz deseja ajudar Reinhold, e chega à conclusão que ele não consegue entender isto e se sente insultado. É assim que as coisas são. Pouco tempo depois, algo sucede, por acaso, em que Franz está envolvido. Um trabalho que julgava ser uma simples entrega de fruta e que subitamente descobre tratar-se de um roubo. Mantém-se atento e tenta em vão fugir. Após o roubo, Franz está sentado com Reinhold num carro, quando subitamente Reinhold pressente estarem a ser seguidos. Agora o medo de Reinhold junta-se à raiva para com Franz. E então ocorre algo que se assemelha a uma sequência de sonambulismo. Reinhold atira subitamente Franz para fora do carro. Franz é atropelado pelo veículo que seguia atrás, e aparenta realmente estar morto. Mas Franz Biberkopf não está morto. Perdeu apenas o seu braço direito. A sua ex-namorada, Eva, e o seu chulo ajudam-no a repor-se. E sem o braço direito. Regressa à cidade, onde trava conhecimento com um pequeno gangster, para quem faz alguns trabalhos que o colocam numa posição financeira relativamente desafogada. É então que Eva lhe leva uma rapariga. Franz chama-a Mietze, e cedo se revela que esta começa a prostituir-se por Franz. Franz aceita a situação, e por algum tempo ambos são felizes. Amam-se. Mas Reinhold intromete-se entre eles, encontrando Mietze várias vezes, até finalmente a assassinar. Franz é condenado pelo crime e enviado para um manicómio, acabando por se transformar num cidadão que pretende ser útil à sociedade. Irá provavelmente transformar-se num nacional-socialista. O encontro com Reinhold foi a sua ruína, a sua degradação.”


Em primeiro lugar quis mostrar o que sabem os alemães – ou melhor, “o Alemão”, digo-o assim pois realmente conheço os alemães -, a matéria de que os alemães são feitos. Como uma ideia como o fascismo - ainda que discutível, mantenho o que penso - os conduziu a algo como o nacional-socialismo, e quanto a isso não há margem para discussão.
Em “Berlin Alexanderplatz” há uma introdução a uma dessas personagens, até emergir finalmente a história entre dois homens. Mas o que sucede entre eles, e como ambos lidam com os outros e se arruínam juntos, é uma história bastante entusiasmante.

Em relação a Franz Biberkopf não se trata da sua morte, mas da morte do anarquista que existe dentro dele. Naturalmente, não é um anarquista na acepção total, porque a anarquia, aos meus olhos, tem sempre a ver com a consciência. O elemento anarquista em Franz é algo bastante pueril, inconsciente, e que fenece. Ele renasce, e nessa perspectiva trata-se de um renascimento como um ser humano normal, medíocre, com muito pouco em comum com o velho Franz Biberkopf, que viveu várias fases altamente contraditórias. Por exemplo, imediatamente antes da luta com os comunistas, quando começa a gritar por paz e ordem, apesar de ser uma pessoa que rejeita totalmente a paz e ordem. Ao invés, torna-se no exemplo clássico de um filisteu alemão. E é por isso que optei por que ele acabasse como nazi. No início, ele poderia ter simpatizado por alguns aspectos do nacional-socialismo, socialmente interessantes, tal como podemos achar a igreja católica interessante e atractiva, com todos os símbolos e por aí em diante. Mas nunca seria um membro normal do partido, como foram tantos neste país. Muito pelo contrário, teria adoptado uma atitudediferente da esmagadora maioria em relação ao nacional-socialismo, estou certo disso, mas acaba como um daqueles que irão muito provavelmente aderir ao partido.

Os elementos que no começo provavelmente apenas irão despertar medo nas pessoas irão, espero, também despertar nelas uma sensibilidade para com a história alemã. E isso é essencial e necessário. Porque se a história alemã for de novo reprimida, algo começará novamente a germinar sob a superfície. Como ninguém se conseguiu reconciliar com o Terceiro Reich. Na minha opinião o Terceiro Reich não foi de forma alguma um acidente histórico, mas um desenvolvimento lógico da história alemã. E a democracia pós-1945 opera através de muitas atitudes que tiveram um papel importante no Terceiro Reich, no que diz respeito à educação e autoridade.

Rainer Werner Fassbinder, 1980
Berlin Alexanderplatz
Realização:
RWF
Direcção de produção: Peter Märthesheiner
Produção: Bavaria Atelier/RAI/WDR, 1979
Argumento: RWF, baseado no romance de Alfred Döblin
Guião: RWF
Fotografia: Xaver Schwarzenberger (cor)
Direcção artística: Helmut Gassner, Werner Achmann e Jürgen Henze Montagem:Juliane Lorenz
Duração: 13 episódios (81’ 58’ 59’ 59’ 59’ 58’ 58’ 59’ 59’ 59’ 59’ 59’) e 1 epílogo (111’)
Intérpretes: Günther Lamprecht (Franz), Gottfried John (Reinhold), Barbara Sukowa (Mieze), Hanna Schygulla (Eva), Franz Buchreise (Meck), Claus Holm (Landlord).