sexta-feira, fevereiro 27, 2009

ROBERTO ROSSELLINI



Nasceu em 1906 em Roma, onde morreu em 1977. Na memória dos cinéfilos (críticos, cineclubistas) portugueses, que participaram nos movimentos culturais cinematográficos do pós-guerra até aos anos 70, subsiste a velha querela que, no interior do neo-realismo – tanto aqui como no estrangeiro – opunha as tendências rosselliniana (de raiz metafísica) e viscontiana (de empenhamento marxista), tendo como centro de gravidade os paradigmas da poética de Zavattini, reconhecido guru do neo-realismo. Paradigmas que, no essencial, e de irrefutada modernidade, consignavam o recurso aos cenários naturais, sobretudo exteriores; ambientes populares e miseráveis; actores não profissionais; a representação do real a partir de factos verídicos, ainda que ‘fait-divers’. Um cinema de crónica.
Se na órbita dessa poética zavattiniana, De Sica realizou duas indiscutíveis obras-primas (“Ladrões de Bicicletas”, 1948, e “Humberto D”, 1951), o discurso rosseliniano desliza para o espiritualismo e a religiosidade, na companhia de outros cineastas, de talento díspar, como F. Fellini, A. Lattuada, L. Zampa, P. Germi, L. Comencini. Do outro lado da barricada, moral e ideologicamente, a perspectiva materialista que com Visconti (“Ossessione”, 1943, “La Terra Trema”, 1950, e “Belíssima”, 1951) se desenvolve enquanto denúncia das raízes mais profundas da injustiça social e luta pela vontade de mudar o mundo numa tomada de consciência que só pode ter carácter colectivo. O acólito mais eminente foi, sem dúvida, Giuseppe De Santis (“Caccia Trágica”, 1948, “Arroz Amargo”, 1949, “Não há Paz entre as Oliveiras”, 1950). Mas a lição de Visconti abre, sobretudo, para a modernidade e o singular discurso de um Michelangelo Antonioni.

A Trajectória rosselliniana

Autor de documentários no período fascista, colaborador de um filme de guerra supervisionado pelo próprio filho de Mussolini (“Luciano Serra, pilota”, 1938), realizador de longas-metragens (“La Nave Bianca”, 1941, “Un pilota ritorna”, 1942, “L’Uomo dalla croce”, 1942), filmes oficiais de encomenda em que a propaganda fascista é disfarçada por um ambíguo pacifismo, o labor cinematográfico de Rossellini na derradeira década do consulado mussoliniano em nada fazia prever a explosão de “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Libertação” (1946) – filmes que marcam historicamente o nascimento do neo-realismo italiano – não considerando “Ossessione” (1943), de L. Visconti – testemunhos dolorosos do sofrimento, morte e sobrevivência de um povo humilhado, mensagens de esperança e de fraternidade expressas de forma espantosamente pura, distante do caligrafismo e do pendor melogramático, dois veios que nunca deixaram de penetrar o território fílmico transalpino, que nunca deixaram de alimentar potentes tendências do cinema italiano do pós-guerra.
Para Rossellini, o cinema era, sobretudo, “a inocência e a inteligência do olhar.”, o que o opunha – para além de indesmentíveis divergências ideológicas – ao rigor estético de Visconti ou mesmo ao populismo de De Sica.
Ao suicídio de um jovem (“Alemanha, Ano Zero”, 1947), sucede o espiritualismo cristão (“Amor”, 1948, e “O Santo dos Pobrezinhos”, 1950), a commedia del’arte (“La maccquina ammazzacattivi”, 1952), a fábula satírica (“Onde Está a Liberdade?”, 1953, com Totó). Provavelmente o menos neo-realista de todos os neo-realistas, só retomará essa temática passados quinze anos, com “O General Della Rovere” (1959) e “Era Noite em Roma” (1960), precisamente quando decide enveredar pela carreira televisiva.
O casamento com Ingrid Bergman e os filmes com que celebrou o enlace (“Stromboli”, 1949, “Europa 51”, 1952, “Viagem a Itália” e “O Medo”, ambos de 1954), obrigam a recorrer à co-produção. Rossellini mantém o despojamento estilístico ante os dramas dos escombros físicos e morais da guerra; a liberdade através de Deus corporizada em Ingrid Bergman, a sua heroína; os apólogos, ao mesmo tempo realistas e fabulistas, próprios do comportamento franciscano; as soluções contraditórias de uma Europa que procura reerguer-se das ruínas no rescaldo da luta pela liberdade contra a opressão. Ou seja. Rossellini não se confina aos limites da sua Itália (território e povo): ao longo de quase duas décadas recorre a personagens estrangeiras para nos restituir o “olhar” pessoal sobre um mundo em mudança. O fracasso total do seu derradeiro filme, “Anima Nera” (1962) leva-o a abandonar definitivamente o cinema e a escolher um novo modo de expressão: a televisão.
“Viva Itália” – com que encerramos o ciclo – marca o seu primeiro trabalho televisivo.
Rossellini opta assim por uma outra preocupação: o didactismo.
Do mesmo passo procura não só reflectir a nova tecnologia da imagem, mas também, e sobretudo, reflectir sobre os limites e as virtualidades de uma caixa que potencialmente permite a entrada do mundo em nossa casa.

Manuel Neves.

terça-feira, janeiro 20, 2009

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Novíssimos





















NOVÍSSIMOS DO CINEMA PORTUGUÊS
2.ª MOSTRA

Cinema São Jorge
Av. da Liberdade, 175

Tel: 21 310 34 00

Sábado, 27 de Dezembro
16h00
ONE MINUTES PT WORKSHOP 2008
Ana Mendes, André Catalão, André Uerba, Carlos Cipriano, Carlos Godinho,
Carlos Noronha Feio, Cristiana da Costa Rodrigues, Gonçalo Robalo,
Joana Bastos, Larissa Alves, Luís Rocha Antunes, Maria Jorge Martins,
Mónica Mendes, Pedro Faria, Rita Cascais, Rita Cortez Pinto, Rodrigo de
Magalhães, Vasco Monteiro, Sofia Arriscado, Ynaiê Dawson
Monitores : Ana Masling e José Biscaya
25', 2008

METAMORFOSES
de Bruno Cabral
50', 2007

18h00
VIA DE ACESSO
de Nathalie Mansoux
82', 2008

Domingo, 28 de Dezembro
16h00
JARDIM
de João Vladimiro
80', 2007

18h00
BAB SEBTA
de Pedro Pinho e Frederico Lobo
110', 2008

Preços por sessão:
1,50€ sócios
3€ não-sócios

Organização
ABC Cine-clube de Lisboa

Co-Pordução
Câmara Municipal de Lisboa
EGEAC

Patrocínio
ICA
IMC

quinta-feira, novembro 13, 2008

Instituto Cervantes





















FERNANDO FERNÁN-GÓMEZ
(1921-2007)
CICLO DE HOMENAGEM

4 de Novembro
Esa pareja feliz
de Juan-Antonio Bardem e Luis Garcia
Berlanga
Espanha, 1951

11 de Novembro
Juan Soldado
de F. Fernán-Gómez
Espanha, 1973

18 de Novembro
El espíritu de la colmena
de Victor Erice
Espanha, 1973

25 de Novembro
Mamã cumple cien años
de Carlos Saura
Espanha, 1979

2 de Dezembro
El viaje a ninguna parte
de F. Fernán-Gómez
Espanha, 1986

9 de Dezembro
El rey pasmado
de Imanol Uribe
Espanha, 1991

16 de Dezembro
El abuelo
de José Luis Garci
Espanha, 2004

Sessões
Terças-feiras, às 18h30

Auditório do Instituto Cervantes
Rua de Santa Marta, 43 F R/C
Tel. 213 105 020

Entrada livre

Os filmes são projectados na versão original em espanhol

Classificação etária geral: maiores de 16 anos.


O programa pode ser alterado por motivos imprevistos.


INFORMAÇÕES

Instituto Cervantes
cultis@cervantes.es
http://lisboa.cervantes.es
www.cervantes.es

ABC Cine-Clube de Lisboa
abccineclube@hotmail.com
http://abc-cineclube.blogspot.com

Folheto - Em formato PDF

Ciclo Joaquim Leitão - Até Amanhã Camaradas






















ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS
Realização: Joaquim Leitão
Guião: Luís Filipe Rocha
Intérpretes: Gonçalo Waddington, Cândido Ferreira, Leonor Seixas,
Nuno Nunes,
Paulo Pires, Marco d’Almeida, Ivo Ferreira,Adriano Luz,
Sara Graça, Luís Lucas,António
Melo, José Wallenstein, etc.
Produção: Tino Navarro, para MGN Filmes (Portugal) e SIC (Portugal),
com o apoio
financeiro do ICAM, 2005
Série para televisão baseada no romance homónimo de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal)


Sábado, 15 de Novembro
17h00 episódios 1, 2 e 3
Duração: 150 minutos. Cor

Sábado, 22 de Novembro
17h00 episódios 4, 5 e 6
Duração: 150 minutos. Cor

Sessões no Auditório João Hogan
A Voz do Operário
Rua da Voz do Operário, 13

Classificação etária geral: maiores de 16 anos.
O programa pode ser alterado por motivos imprevistos.

ENTRADA LIVRE

INFORMAÇÕES
A Voz do Operário
www.soc-voz-operario.rcts.pt

ABC Cine-Clube de Lisboa
http://abc-cineclube.blogspot.com
abccineclube@hotmail.com

Folheto - Em formato PDF

Ciclo Joaquim Leitão





















Sábado, 29 de Novembro
16h30 UMA VIDA NORMAL

Int. Joaquim de Almeida, Maria Barranco,Anamar, Margarida Marinho,Vítor Norte,
Marcos Rodrigues,Alina Vaz, Luís Filipe Rocha, Maria Emília Correia,António Rama,
Orlando Costa, etc.
Prod. Tino Navarro, para MGN Filmes (Portugal), RTP (Portugal), com a participação
financeira do IPC e do SCALE/BABEL Multilinguism Loan (Programa Media), 1993
Duração: 108 minutos. Cor


18h30 ADÃO e EVA

Int. Maria de Medeiros, Joaquim de Almeida, Karra Elejalde, Ana Bustorff, Cristina
Carvalhal, Marcantónio Del-Carlo, Rogério Samora, Júlio César, Filipe Crawford,
Cândido Ferreira, Ricardo Pais, Luís Filipe Rocha, etc.
Prod. Tino Navarro para MGN Filmes (Portugal), SIC (Portugal), Central de
Producciones Audiovisuales (Espanha),Artcam (França), com a participação financeira
do Fonds Eurimages du Conseil de l’Europa e ICAM, 1995
Duração: 104 minutos. Cor


Sábado, 6 de Dezembro

16h30 TENTAÇÃO

Int. Joaquim de Almeida, Cristina Câmara, Diogo Infante, Ana Bustorff, Sofia Leite, João
Lagarto, Cármen Santos, etc.
Prod. Tino Navarro, para MGN Filmes (Portugal), SIC (Portugal), Skilight (Brasil), com
a participação financeira do IPACA e do Ministério da Cultura do Brasil,1997
Duração: 115 minutos. Cor


18h30 INFERNO

Int. Joaquim de Almeida, Nicolau Breyner, Ana Bustorff, Cristina Câmara, Júlio César,
Cândido Ferreira,António Melo, Carlos Narciso, José Mora Ramos, Rogério Samora,
Carlos Santos, José Wallenstein, Sancho Gracia, Gerardo Giacinti,Altor Mazo, etc.
Prod. Tino Navarro, para MGN Filmes (Portugal), SIC (Portugal), Morena Filmes
(Espanha), com a participação financeira do ICAM, 1999
Duração: 120 minutos. Cor

Sábado, 13 de Dezembro
18h00 20,13 - PURGATÓRIO

Int. Marco d’Almeida,Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas, etc.
Prod. Tino Navarro, para MGN (Portugal), com a participação financeira do ICAM,
2006
Duração: 114 minutos. Cor


INFORMAÇÕES
A Voz do Operário
www.soc-voz-operario.rcts.pt

ABC Cine-Clube de Lisboa
http://abc-cineclube.blogspot.com
abccineclube@hotmail.com

Classificação etária geral: maiores de 16 anos.
O programa pode ser alterado por motivos imprevistos.

Folheto - Em formato PDF

Filmes no Trindade




















Do Palco ao Ecrã: lembrar Anton Tchekov

Terça-feira, 11 de Novembro, às 18h30
Entardecer (Nachmittag)
de Angela Schanelec,Alemanha, 2007
Duração: 97 minutos. Digital. Cor
Leg. português

Ciclo Joaquim Leitão (extensão)
Quinta-feira, 13 de Novembro, às 18h00
Uma Vida Normal
de Joaquim Leitão, Portugal, 1993
Duração: 108 minutos. Digital. Cor

Ante-estreia & Inéditos
Terça-feira, 18 de Novembro, às 18h30
Em Julho (Im July)
de Fatih Akin,Alemanha, 2000
Digital. Cor
Leg. português

Revisitar Milos Forman
Terça-feira, 25 de Novembro, às 18h30
Os Amores de Uma Loira (Lasky
jedné plavovlásky)
de Milos Forman, Checoslováquia, 1965
Duração: 82 minutos. Digital. P/B
Leg. inglês

Quinta-feira, 4 de Dezembro, às 18h30
O Baile dos Bombeiros (Hori, ma
panenko)
de Milos Forman, Checoslováquia, 1967
Duração: 72 minutos. Digital. Cor
Leg. inglês

Grandes Clássicos
Quinta-feira, 11 de Dezembro, às 18h30
Tabu
de Friedrich Wilhelm Murnau e Robert
Flaherty USA, 1931
Duração: 85 minutos. Digital. P/B
Leg. inglês

Sessões
Teatro da Trindade – Sala Principal
Rua Nova da Trindade, 9
Tel. 213 420 000

INFORMAÇÕES

Teatro da trindade/Inatel
teatro.trindade@inatel.pt

ABC Cine-Clube de Lisboa
abccineclube@hotmail.com
http://abc-cineclube.blogspot.com

Folheto - Em formato PDF

segunda-feira, setembro 22, 2008

Rainer Werner Fassbinder





















CALENDÁRIO DAS SESSÕES


Terça-feira, 7/10/08
18h30 O Casamento de Maria Braun
(Die ehe der Maria Braun), RFA, 1978


Terça-feira, 14/10/08
18h30 Lola, Uma Mulher Alemã
(Lola - BDR III), RFA, 1981


Quarta-feira, 22/10/08
18h30 Saudade de Veronika Voss
(Die sehnsucht der Veronika Voss), RFA,1981


Teatro da Trindade
Sala Principal
Rua Nova da Trindade, 9
Entrada: 1,00 €


Organização
Teatro da Trindade / Inatel
ABC Cine-Clube de Lisboa


Colaboração
Goethe-Institut Portugal

Patrocínio ICA - Instituto do Cinema e do Audiovisual
Ministério da Cultura
Programa de Apoio à
Exibição Não Comerci
al (REDE 2007)

domingo, setembro 21, 2008

Ciclo “As Dores do Crescimento – Escola, Família e Sociedade”






















Sessões no Auditório João Hogan - Voz do Operário


4.10.08
17h00 Zero em Comportamento
(Zero de Conduite), de Jean Vigo, França (1933)
c/ Jean Dasté, Robert le Fon, Delphin Du Verron.
Alunos: Louis Lefèvre, Gérard de Bédarieux, Constantin Goldste Kehler, Gilbert Pruchon. p.b., 42’, legendas em espanhol
Proibido pela censura francesa em 1933. Reposto em 1945 após a Libertação.

18h00 Os Coristas
(Les choristes), de Christopher Barratier, França (2004)
c/ Gérard Jugnot, François Berléand, Jean-Baptiste Maunier, Jacques Perrin, Jean-Paul Bonnaire, Maxence Perrin, Didier Flamand, Marie Bunel, Carole Weiss.

cor, 92’, legendas em português
Nomeado para 2 “Oscars: Melhor filme estrangeiro e Melhor canção original.

11.10.08
16h30 Sciuscià
(id.), de Vittorio De Sica, Itália (1946)
c/ Franco Interlenghi, Rinaldo Smordoni, Aniello Mele, Enrico De Silva.
p.b., 86’, legendas em espanhol
“Oscar” do Melhor filme estrangeiro, 1947.

18h30 Até Amanhã, Mário
de Solveig Nordlund, Portugal (1993)
c/ João Silva, Vítor Norte, Conceição Pereira, Paulo César Barros, José Cândido Andrade, Hélder Abreu.
cor, 76’

18.10.08
16h30 Liam
(id.), de Stephen Frears, Grã-Bretanha (2000)
c/ Anthony Borrows, Claire Hackett, Ian Hart, Ann Reid, Megan Burns, David Hart, Russell Dixon.
cor, 91’, legendas em português

18h30 Fuga Sem Fim
(Runnig on Empty), de Sidney Lumet, USA (1988)
c/ River Phoenix, Judd Hirsh, Christine Lathi, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley, LM Kit Carson, Steven Hill, Augusta Dabney.
cor, 116’, legendas em português

25.10.08
16h30 Ser e Ter
(Être et avoir), de Nicholas Philibert, França (2002) | Documentário.
c/ Georges Lopez (o professor); alunos: Alizé, Axel, Guillaume, Jessie, Jojo, Julien, Laura, Létitia, Marie-Elizabeth, Nathalie, Olivier; habitantes de Saint-Etienne sur Usson (Puy-de-Dôme). cor, 104’, legendas em português

18h30 Juventude Inquieta
(Rumble Fish), de Francis Ford Coppola, USA (1983)
c/ Matt Dillon, Mickey Rourke, Diane Lane, Dennis Hopper, Diana Scarwid, Vincent Spano, Nicolas Cage, Christopher Penn, Tom Waits.
cor & p.b., 94’, legendas em português


AS DORES DO CRESCIMENTO – ESCOLA, FAMÍLIA E SOCIEDADE

Quando os problemas da educação constituem questão central da nossa democracia, seja no aspecto político-administrativo em geral, seja nas orientações sectoriais – sistemas de aprendizagem de saberes e competências, programas curriculares, critérios de avaliação e exames, absentismo e insucesso escolares, recrutamento e carreiras docentes, instalações e distribuição geográfica, ensino público e privado, novas tecnologias – impõe-se reflectir sobre tão complexa problemática. A questão respeita, por isso, tanto ao legislador, como aos órgãos executivos nos seus diversos graus, quanto à sociedade no seu conjunto.

A alegoria contida na designação do presente ciclo – As Dores do Crescimento - Escola, Família e Sociedade – possui uma latitude que inibe a desconsideração de qualquer dos fios que se entrecruzam no nunca pacífico processo da passagem da idade infantil até à idade adulta. E, no concreto, a pletora de sugestões que esses fios carreiam nas oito obras que integram o ciclo não sofre qualquer processo redutor (claro que cada uma delas vale por si mesma, muito embora, descontadas específicas acentuações, nunca ignorem a multiplicidade de tais fios, biológica, psicológica, educacional, familiar-social, ideológica, política…).

Iremos, assim, ser confrontados com visões das mais ricas sobre o universo infanto-juvenil na sua dinâmica com o mundo adulto: no âmbito da escola, da família e da própria sociedade. E isto através de uma pluralidade estilística que vai desde (aparentes) naturalismos – Liam e Ser e Ter – até o paradigma neo-realista – Sicuscià – e seu indesmentível e recente avatar que é Até Amanhã, Mário; desde a narrativa política – Fuga Sem Fim – até a poética libertária e anarquista – Zero em Comportamento; desde a denúncia da prepotência – Os Coristas – até o mais subtil dos onirismos – Juventude Inquieta.
De lamentar as habituais dificuldades na obtenção de cópias, que o suporte digital tão-só veio atenuar: um ciclo assim não deveria dispensar, por exemplo, O Rapaz dos Cabelos Verdes, de Joseph Losey (1949), A Sombra do Caçador, de Charles Laughton (1954), O Tesouro do Barba Ruiva, de Fritz Lang (1954), Fúria de Viver, de Nicholas Ray (1955), Os 400 Golpes, de François Truffaut (1959), Esplendor na Relva, de Elia Kazan (1961) ou Aos Nossos Amores, de Maurice Pialat (1983).


Mas debrucemo-nos, ainda que em breves linhas, sobre os títulos.
Zero em Comportamento, de Jean Vigo, alterna o lirismo e o fantástico, o real e o sonho, a inseparável aliança das ideias de amor e revolução, a violência da sociedade burguesa e a insurreição contra a mesma. Vigo, um dos maiores poetas do cinema, funde, num contexto de internato para rapazes, a subjectividade do olhar infantil com as explosões panfletárias, alternando lirismo e fantástico.


Sete décadas depois, Christopher Barratier, com Os Coristas, retoma a clausura do “internato”, onde impera o sistema repressivo de um director, Rachin, tão ambicioso quanto prepotente. O protagonista, professor de música desempregado, é admitido como vigilante, e através da música, da magia do canto coral, transformará comportamentos, sentimentos e o próprio futuro dos jovens asilados.

Inequívoco produto da poética de Zavattini, Sciuscià (corruptela do inglês ‘shoe shine’, engraxador), realizado por Vittorio De Sica, é uma obra-chave do neo-realismo italiano que aborda o tema do mal-estar social numa Itália sob as ruínas da guerra. Os jovens Pasquale, órfão, e Giuseppe vivem de engraxar sapatos a soldados americanos. Fábula pungente, quase uma alegoria, sobre a pureza e as sevícias, o cinismo e a crueldade do mundo (a prisão), Sciuscià descreve sem concessões um país em ruínas, sem abdicar do discurso lírico.


Um símile olhar, radicando em idênticos paradigmas técnico-formais (De Sica-Zavattini), perpassa por Até Amanhã, Mário, filme português de Solveig Nordlund. Passado na ilha da Madeira, paraíso turístico a que subjaz a miséria (escondida), a pedofilia (organizada), a mendicidade (folclórica) de miúdos da rua, o filme, não obstante o empenhamento social – subtil, sage, não ostentado –, trabalha num registo de despojamento a todos os títulos admirável.

Regressando ao olhar infantil, Liam, de Stephen Frears, constitui-se em pungente visão de uma criança de sete anos, de família católica operária na Liverpool da Depressão dos anos 30. Liam testemunha o desemprego do pai, a falta de dinheiro, o recurso à casa de penhores, a miséria familiar. E ante o despotismo eclesiástico sofre os tormentos espirituais advindos das aulas de catequese. É nesse caldo de cultura de desemprego, fome, desespero e desesperança que medra o nazismo, induzido pela espiral anti-semita e pela xenofobia contra os trabalhadores imigrantes irlandeses.


Fuga Sem Fim, de Sidney Lumet, retrata o rito da passagem à adolescência do jovem Danny e a errância permanente dos pais, vivendo uma clandestinidade devida a acções terroristas contra o emprego de napalm pelos americanos no Vietnam. Um jovem que anseia por relações normais na vida escolar e no namoro, vê ser-lhe coarctada a possibilidade de desenvolver o seu talento musical, compelido a uma vida nómada, mudando permanentemente de casa e de cidade, sem deixar raízes.

Assumindo a via documentarista, Nicolas Philibert realiza um belo filme, Ser e Ter, sobre a educação. Georges Lopez, professor numa escola primária na região de Auvergne, em pleno meio rural, não só transmite aos seus alunos os saberes curriculares mas também suscita o desenvolvimento do intelecto, faz desabrochar a sensibilidade, apela para o sentido de cidadania: educa, em suma. Treze crianças, com idades que vão dos 4 aos 10 anos, formam três distintos grupos etários. Com particular afecto, o professor trabalha individual e colectivamente as classes, nunca levantando a voz, e é olhado como um pai especial, alvo de respeito e confiança – dos alunos e seus familiares. Uma lição não só para os educadores de infância mas também, e especialmente, para os lados do ministério da 5 de Outubro…

Com Juventude Inquieta, de Francis Ford Coppola, penetramos na marginalidade juvenil. Rusty James, um jovem a quem não abunda a inteligência mas aspira a tornar-se chefe do bando do seu bairro, nutre uma desmedida idolatria pelo irmão mais velho, conhecido por ‘Motorcycle Boy’, que, cansado e desiludido da aventura da Califórnia, regressa à clausura do sítio onde fora rei. Cônscio finalmente da inutilidade da sua luta anti-social, vê desmoronar-se o mito que o sustinha – a rebeldia. É preciso saber renunciar, diz ele ao irmão mais novo, antes de morrer. Juventude Inquieta forma com Os Marginais um díptico, sendo ambos adaptados de romances de S. E. Hilton. A recriação do filme clássico americano sobre a adolescência em Os Marginais dá lugar a um onirismo de inusitada modernidade em Juventude Inquieta, inspirado no filme negro dos anos 40, em que da imagem a preto e branco emerge a cores o dourado dos peixes de aquário.

Organização:
ABC CINE-CLUBE DE LISBOA
Rua do Conde de Redondo, 20, 3.º Dto
e-mail: abccineclube@hotmail.com
http://abc-cineclube.blogspot.com

A VOZ DO OPERÁRIO
Rua da Voz do Operário, 13
Tel. 218 862 155
www.soc-voz-operario.rcts.pt

Patrocínio:
ICA | MC
Programa de Apoio à Exibição Não Comercial (REDE 2008)

Apoios:
JUNTA DE FREGUESIA DE SÃO VICENTE DE FORA
SPGL – Sindicato dos Professores da Grande Lisboa
CAMPO DIGITAL

Sessões no Auditório João Hogan
A Voz do Operário
Rua da Voz do Operário, 13
Tel. 218 862 155

Entrada livre
Classificação etária geral: maiores de 16 anos.

O programa pode ser alterado por motivos imprevistos.



sábado, março 29, 2008

CINEMA SOCIAL E DOS DIREITOS HUMANOS
















INSTITUTO CERVANTES e ABC CINE-CLUBE DE LISBOA

Apresentam
CINEMA SOCIAL E DOS DIREITOS HUMANOS

O cinema espanhol mais recente conta com uma ampla filmografia dedicada à temática social e dos direitos humanos. Com efeito, alguns deste filmes podem considerar-se das melhores obras produzidas ultimamente em Espanha e têm sido premiadas e reconhecidas internacionalmente, como é o caso de “Mar Adentro”, do realizador Alejandro Amenábar, que obteve um “Oscar” em 2004, entre outros prémios.
Temas como o desemprego, o racismo, os maus tratos, a delinquência ou a eutanásia contados ou denunciados com uma linguagem cinematográfica de grande qualidade estética, narrativa e interpretativa.
E ainda um destaque: dois dos filmes apresentados com a interpretação de Javier Bardem, recentemente premiado com o “Oscar” para o melhor actor secundário.

PROGRAMAÇÃO

1 de Abril
“Los lunes al sol”, de Fernando Léon (2002)
intérpretes: Javier Bardem, Luis Tosar, José Ángel Egido | 113 min. / cor
Sobre as condições do trabalho precário e a emigração.

8 de Abril
“Poniente”, de Chus Gutiérrez (2002)
intérpretes: Cuca Escribano, José Coronado, Mariola Fuentes,Antonio Dechent
| 96 min. / cor


15 de Abril
“Te doy mis ojos”, de Iciar Bollaín (2003)
intérpretes: Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa María Sarda | 109 min. / cor
Sobre os maus tratos no seio familiar.

22 de Abril
“Mar adentro”, de Alejandro Amenábar (2004)
intérpretes: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas | 125 min. / cor
Sobre a problemática da eutanásia.

29 de Abril
“Solas”, de Benito Zambrano (1999)
intérpretes: Maria Galiana,Ana Fernández, Carlos Alvarez-Novoa | 98 minutos / cor
Sobre a solidão e a solidariedade.


SESSÕES:TERÇAS-FEIRAS, ÀS 18H30
AUDITÓRIO DO INSTITUTO CERVANTES
Rua de Santa Marta, 43 F

Entrada livre


classificação etária geral: maiores de 16 anos.

O programa pode ser alterado por motivos imprevistos


Organização
INSTITUTO CERVANTES
e-mail: cultlis@cervantes.es
http://lisboa.cervantes.es
www.cervantes.es

ABC CINE-CLUBE DE LISBOA
E-mail: abccineclube@hotmail.com
http://abc-cineclube.blogspot.com

Patrocínio
ICA – MC

quinta-feira, janeiro 31, 2008


Mostra de Cinema de Expressão Alemã
Alemanha • Áustria • Luxemburgo • Suíça

Cinema São Jorge
30 Jan a 6 Fev 2008


ver programação em pdf

domingo, dezembro 02, 2007

2.º Comunicado "Ciclo Novíssimos

Ciclo “Novíssimos do Cinema Português”

no Cinema São Jorge


Adiado devido ao encerramento das salas do Cinema Quarteto pela IGAC (Inspecção-Geral das Actividades Culturais), o ciclo “Novíssimos do Cinema Português” vai realizar-se no Cinema São Jorge, nos próximos dias 9 e 14 de Dezembro, conforme programa anexo.

O ABC Cine-Clube de Lisboa manifesta o seu reconhecimento à Vereação da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, bem como à Egeac, empresa municipal gestora dos espaços culturais da CML, pela colaboração prestada, contribuindo com a cedência do São Jorge a concretização de uma iniciativa que se propõe contribuir para a revelação dos novos valores do cinema português.


Lisboa, 30 de Novembro de 2007

ABC Cine-Clube de Lisboa

A Direcção

Agradecemos a divulgação.


ver programa





segunda-feira, novembro 19, 2007

COMUNICADO

Ciclo “Novíssimos do Cinema Português” marcado para o Cinema Quarteto

As salas do Cinema Quarteto foram encerradas pela IGAC (Inspecção-Geral das Actividades Culturais), na sequência de vistoria realizada a 16 de Novembro, durante a qual, segundo o respectivo despacho oficial, foram verificadas “anomalias graves que colocam em risco a segurança do público”.

Para o ABC Cine-Clube de Lisboa esta situação constituiu inesperada e surpreendente surpresa, em face do que somos forçados a suspender toda a programação prevista para exibir no Quarteto, e nomeadamente o ciclo Novíssimos do Cinema Português, que deveria iniciar-se amanhã, dia 20, às 19h00.

Apelamos, assim, para a compreensão de todos, sócios e convidados, e queremos ao mesmo tempo expressar o nosso particular reconhecimento a realizadores e produtores do ciclo Novíssimos…, que unanimemente aceitaram o adiamento da iniciativa.


Lisboa, 19 de Novembro de 2007


ABC Cine-Clube de Lisboa

A Direcção

domingo, novembro 18, 2007

Novíssimos

























NOVÍSSIMOS DO CINEMA PORTUGUÊS

CINEMA QUARTETO


PROGRAMA

Terça-feira, 20 de Novembro

19h00

Yangel

de Ale? e Patrícia Leal (L.M.), 2005


Quarta-feira, 21 de Novembro

19h00

Filmes de Luís Miguel Correia

Da Natureza das Coisas, (M.M.), 2003

O Dedo, (C.M.), 2005

Estação, (M.M.), 2007


Quinta-feira, 22 de Novembro

19h00

1.º Curso de Realização de Cinema da F. C. Gulbenkian - 2005

No Início

de Pedro Pinho (C.M.)

Dispersão

de João Constâncio (C.M.)

A Minha Mãe é Pianista

de João Rosas (C.M.)

Domingo

de José Filipe Costa (C.M.)


2.º Curso de Realização de Cinema da F. C. Gulbenkian - 2007

Luís e o Jardim que Ficou para Trás

de Ana Eliseu (C.M.)

Júlio

de Gonçalo Robalo (C.M.)

Antípodas

de João Paulo Oliveira (C.M.)


Sexta-feira, 23 de Novembro

19h00

Primeiro Voo

de Nuno Bernardo, (C.M.), 2006

Balaou

de Gonçalo Tocha (L.M.), 2007


INICIATIVA

ABC Cine-Clube de Lisboa

COLABORAÇÃO

Fundação Calouste Gulbenkian

Raiva

O Som e a Fúria

LABCC

APOIO

CML - Videoteca Municipal

Cinema Quarteto

PATROCÍNIO

ICA/MC

Sessões no âmbito do Programa de Apoio à Exibição Não-Comercial (REDE)

ACESSO ÀS SESSÕES

Quota suplementar: 2,0 euros

Classificação etária geral: maiores de 16 anos



segunda-feira, novembro 12, 2007

A Comédia Italiana do Pós-Guerra

























Quinta-feira, 22.11, 18h30

A VIDA É BELA
de R. Benigni, 1999
leg. português
Duração: 111 min.


Sábado, 24.11, 16h00

TOTÓ DESCEU À CIDADE
de C. L. Bragaglia, 1949
leg. português
Duração: 77 min.

PAINEIS DA VIDA
de Steno e Monicelli, 1953
V.O. sem legendas
Duração: 96 min.


Quinta-feira, 29.11, 18h30

BIANCA

de N. Moretti, 1984
leg. português
Duração: 96 min.


Sábado, 1.12, 16h00

MATRIMÓNIO À ITALIANA
de V. De Sica, 1964
leg. português
Duração: 100 min.

PÃO, AMOR E FANTASIA
de L. Comencini, 1953
V.O. sem legendas
Duração: 91 min.


Quinta-feira, 5.12, 18h30

OS MONSTROS (sketches)
de D. Risi, 1963
leg. português
Duração: 117 min.


Sábado, 8.12, 16h00

A ULTRAPASSAGEM
de D. Risi, 1962
leg. português
Duração: 103 min.

O CASTIGADOR
de D. Risi, 1959
Leg. português
Duração: 97 min.


Quinta-feira, 13.12, 18h30

CAPRICHOS À ITALIANA (sketches)
de Steno, M. Bolognini, P. P. Pasolini,
Pinozac, M. Monicelli, 1968
leg. português
Duração: 78 min.


Sábado, 15.12, 16h00

GANGSTERS FALHADOS
de M. Monicelli, 1958
leg. português
Duração: 105 min.

CASANOVA 70
de M. Monicelli, 1966
leg. português
Duração: 110 min.


Quinta-feira, 20.12, 18h30

BOCACCIO 70 (sketches)
de M. Monicelli, F. Fellini, L. Visconti,
V. De Sica, 1962
leg. português
Duração: 195 min.


Sábado, 22.12, 17h00

FEIOS, PORCOS E MAUS
de E. Scola, 1976
leg. português
Duração: 115 min.

Condições de acesso
Entrada Livre

Sessões no âmbito do Programa de Apoio à Exibição Não-Comercial (REDE)

SESSÕES NO AUDITÓRIO JOÃO HOGAN - VOZ DO OPERÁRIO

Informações

ABC Cine-Clube de Lisboa
e-mail: abccineclube@hotmail.com

Voz do Operário
www.vozoperario.pt